Artesanato

Havia uma certa expressão de cansaço no rosto dela, por mais que não a apresentasse fisicamente - seja em forma de rugas ou qualquer outro sinal do tempo. O esgotamento não era efêmero, momentâneo: era a prova de alguém que fora constantemente colocada a teste durante toda a vida. As possibilidades eram imensas; poderia ser o insucesso em algum casamento, um trabalho insalubre, talvez uma condição financeira desfavorável e insuficiente. Teria filhos?

Logo se ajeitou na cadeira, espalmou as mãos sobre a mesa. Ajeitou um xale curto sobre os ombros (as cores gritavam) e declarou em alto e bom som, a dicção extremamente clara: estava ali pra ser voluntária. Talvez esperasse mais retumbância na própria voz, ou talvez não esperasse nada. Olhou desgostosa ao seu redor, infeliz com a ausência de olhos arregalados ou expressões impactadas pela sua última declaração de liberdade a um mundo, à sua sugestão, desordenado.

Poucos foram ao seu socorro. Sabia fazer tricô e levava sempre a tiracolo uma sacolinha de pano com agulhas e linhas, a exemplo de escritores com cadernos e crianças com gizes de cera. Se a necessidade gritasse, se o ócio predominasse, atividade não lhe faltaria. Foi sua salvação: em poucos minutos já ostentava uma pequena lista de afazeres. Pôs-se a trabalhar depressa, usando palavras assim como locomotivas se utilizam da fumaça.

Pouco a pouco, as primeiras impressões foram se confirmando. Houve um misto de causa e consequência, e rapidamente tornou-se difícil identificar quem amparava quem: meio ou indivíduo. E foi assim, nesse exato momento, que o limite entre ajudar e ser ajudado confundiu-se a ponto de tornar-se um só.

Não havia trabalho voluntário.

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