Orangotangos

Considerei-o um idiota, um completo estúpido abobalhado. Estava em um grupo de cinco, talvez seis indigentes em trajes de banho que julgavam salientar as variantes positivas inexistentes de seus corpos redondos e engordurados pelo bloqueador solar. Uma baixinha cheia de estrias - daquelas que entram em um mundo paralelo onde podem finalmente sentir-se bonitas ao vestirem um chapéu sovado e se enfiarem em bíquinis de fechos estourados - palestrava a respeito das banalidades que faria se tivesse alguns dólares na mão. Os demais, homens de corpo e comportamento peludos como chimpanzés, se reuniam em volta dela, macaqueando como se aquela peça horrível de ser humano estivesse no cio.

O sobressalente, o tal estúpido, sorria sem graça um sorriso amarelo enquanto levava os dentes levemente para frente: isso, de certa maneira, elevava e abria suas narinas de forma a tornar aquela feição ainda mais idiota. Era óbvia sua condição naquele grupo. Após alguns malabarismos com uns copos cheios de cerveja, os homens sentaram-se acompanhando a moçoila que brilhava úmida e pegajosa; esta, para mostrar um mínimo de classe, pediu uma caipirinha (de cachaça, era mais barata e não podia pagar mais do que isso até que escolhesse um parceiro naquele bando que satisfazesse suas efêmeras necessidades econômicas) e se esparramou gordamente em uma cadeira de plástico, que abriu gostosamente as pernas.

Estavam todos ali, reunidos em torno da única mesa melada pelo álcool que puderam encontrar naquele entorno de praia. O bobo continuava a olhá-los; sua expressão besta mudava raramente, forçando um riso eventual para que pudesse agradar os potenciais companheiros. Sentou-se um pouco afastado, fora da roda em torno da mesa, de modo que evidenciava que ainda não era de todo aprovado pelos colegas. Sua aparência mulambenta denunciava uma realidade ainda mais deplorável, o que foi imediatamente confirmado ao pedir uma coca: a cerveja era cara, e ademais, não sentia-se efetivamente benvindo a ponto de partilhar da conta e da bebida do bando que babava naquele exemplar roliço que sugava o copo de caipirinha, quase comendo-o.

Riram fartamente por cerca de duas horas, tempo em que só se fez necessária a presença do garçom duas vezes (uma delas para recolher os restos de uma garrafa que fora vítima dos malabarismos desajeitados de um dos pretendentes da senhorita, o que não foi bem recebido por ela mas deveras conveniente aos demais) e fora suficiente para o que o aparvalhado excluso pudesse se achegar com a cadeira mais dois passos da mesa. Agora suas perninhas finas peludas, que exibiam algumas diversas brotoejas cobertas de areia, balançavam ansiosamente diante da possibilidade de apoiar-se na mesa: a seu ver, um gesto de triunfo.

Mas não houve tempo suficiente. A guria levantou-se, desajeitada, tentando desvencilhar as enormes ancas dos encostos da cadeira de um forma minimamente digna. Os pretendentes à macho-alfa se puserem em pé rapidamente, e puseram-se a discutir a que outro local poderiam despejar o comportamento banal que já havia, há muito, sendo reprovado pelo garçom e pelo dono do pequeno estabelecimento em que se encontravam. Seguiram meio sem rumo, cercando aquele tipo empolado, em um maiô que não era suficientemente grande pra esconder as marcas vermelhas feitas pela cadeira de plástico na enorme bunda ensebada.

O pateta os seguiu, insistindo na ínfima possibilidade de integrar-se. Seguiram-se uns cochichos e umas cotoveladas entre os homens, que empurraram o malabarista desajeitado (já rebaixado em sua condição de pretendente) em direção ao franzino desarranchado. Os dois pararam enquanto o restante continuou o passo, e trocaram algumas palavras; o estúpido fez alguns sinais com a mão como se aprovasse e concordasse com algo, o que fez o colega sorrir abobadamente e correr de volta ao grupo que se afastava.

Ali, sozinho, estacou. Olhou em volta, e avistou, bem longe, alguns tipos jogarem futebol em um campo improvisado na areia. Assim, mirou. E correu a passos largos.

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