Pastel de vento

Pagava o jornal sem sequer emitir som algum. De que adiantava?, pensava. Falavam línguas diferentes. Todo começo de semana, a mesma coreografia: era pegar o jornal (escolher o menos amassado dava-lhe a impressão de que as notícias valiam mais), pegar alguma nota na carteira (dez ou cinco reais, assim trocava o dinheiro e sobravam-lhe algumas moedas para dar ao cobrador de ônibus) e pagar. Silenciosamente. Vez ou outra chacoalhava o jornal no ar, para mostrar qual estava comprando. Tinha a impressão que o homenzinho desconfiava, não gostava disso. Teria cara de ladrãozinho barato de banca de jornal? Andava sempre bem vestido, passava um ar de gente inteligente (alguns amigos discordavam entusiasticamente disso). A idade, talvez. “Jornal é coisa de velho”, imaginava o homem falando aos mileum gestos ao enfiar o dedo no nariz de um suposto existente neto. Logicamente a fonética seria outra. Como será que seria?

Espantou os pensamentos como se fossem moscas, bufou. Malditos estereótipos.

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