Augustos

Tenho percebido muito frequentemente que muitas pessoas tem, na fonte de todos os seus problemas e neuroses, a carência como geradora das mais diversas inconveniências a que somos submetidos pela fraqueza cerebral do abominável ser que é o bicho homem. Veja bem, não me reprove: felizmente insisto em afirmar que não partilho dessa besteira de lamuriar-me sofregamente pelos cantos para que não pense que tento assim me passar por qualquer tipo hipócrita; apenas pretendo descrever aqui as passagens desgastantes a que sou (e creio que você também o é) submetido no decorrer de nossa ínfima existência por essa trivial invenção humana que é sentir-se carente.

Como sempre procuro e nunca canso de reforçar, o Homo sapiens é, antes de tudo, uma espécie em particular que tenta desesperadamente desgarrar-se do meio seletivo que, por tanto tempo, a moldou. Em outros termos, o humano sempre busca o desvínculo com sua humanidade. Ei-lo: ser humano é ser animal, quer queira ou não, e há um estalo constante em nosso cérebro que busca se desprender dessa realidade a qualquer custo. Ao que pareço prolixo, explico: logo farei um pequeno link com o primeiro parágrafo (sentindo muito pelo uso da palavra em inglês, mas que muito bem faz seu papel); peço apenas que me permita divagar somente mais um pouco. Quando dizemos que é humano ajudar as pessoas do Haiti (escusas à parte por aqueles que deportamos desumanamente - compreende? - de nossa terra brasileira), apenas delimitamos uma ação que é inerente à nossa necessidade comum de, ora, ajudar nossa própria espécie. É como nossa necessidade programada de copular para reproduzir - esta última, no entanto, um pouco mais fácil de ser enganada pelos brilhantes métodos contraceptivos e pela masturbação. Logo, ao meu ver, não ser humano não significa sermos ruins ou prepotentes, ou até mesmo insensíveis, mas sim trabalhar nosso modo de conduzir nossas ferramentas de relação com o que nos cerca.

Volto, finalmente, ao ponto em que parei no primeiro parágrafo. Dizia que a carência humana (falo daquela sentimental, a afetiva, não da falta de algo material ou daquela inventada pelas odiosas operadoras de celular: estas últimas transcenderam brilhantemente o humano) é uma fonte absolutamente renovável de problemas terrenos e, por consequência, banais. Nossa espécie é a única que percebe a necessidade estranha e inapalpável do elogio e do sentir-se necessário - procedência infinita de brigas entre filhos e mães, casais no limbo amoroso ou qualquer combinação dos supracitados - como parte das necessidades comuns de nossa fisiologia como é a reprodução ou a excreção. Este tipo de besteira inventada em consequência de um encéfalo excessivamente desenvolvido suga nossa capacidade de manter-nos pacientes diante de nossos semelhantes e tenta fazer-nos rebaixar àquilo que constantemente tentamos fugir que é, tão simplesmente, sermos nós mesmos: gente. Aquele que tem, dentre suas habilidades não apenas lutar judô, dançar balé ou fazer natação mas, também, ignorar sua estúpida necessidade de fazer-se carente está certamente englobado naquilo que gosto (e gosto mesmo) de chamar de homem superior (com a delicadeza de explicitar que me refiro à nossa espécie, e não ao sexo masculino da mesma; ainda hoje encontro muitas feministas de plantão prontas pra destilar seus venenos na inocência de nossas idéias). Creio que, se sentiu-se desgostoso ao ler esse meu infame - porém verdadeiro, pelo menos a mim - excerto, certamente não se engloba ao último e prestigioso grupo que citei. A você, recomendo sorvete e chocolate (digo isso exclusivamente porque estimo, com efeito, a dopamina) ou mesmo um bar: este último nem tanto, já que deve ser privilégio daqueles mais capazes de lidar com a coexistência e com os efeitos consequentes do álcool (presente no decorrer do processo evolutivo humano, o que poucos sabem, mas que deve ser objeto de uma discussão mais apropriada; o que posso fazer, por ora, é recomendar-lhes alguns artigos).

Finalmente, o que pretendo deixar claro é um aviso aos poucos colegas que leem meus modestos escritos: deixem de ser estúpidos e utilizem-se daquilo que é a grande bênção de nossa realidade enquanto táxon que é a simples, pura e admirável racionalidade. No mais, se não partilham dessa capacidade (o que, em termos estatísticos, não me surpreenderia) limitem-se a aborrecer seus colegas, parceiros sexuais (se o tiverem, o que recomendaria fortemente) e parentes da forma menos invasiva possível. E viva la evolución.

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