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<rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" version="2.0"><channel><atom:link rel="hub" href="http://tumblr.superfeedr.com/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"/><description>O cotidiano visto através das confissões de um biologista, por Guilhermo Guimarães.

Darwin explica by Guilhermo Guimarães is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 3.0 Brasil License.
This work is in the Public Domain.</description><title>Darwin explica.</title><generator>Tumblr (3.0; @darwinexplica)</generator><link>http://darwinexplica.tumblr.com/</link><item><title>"Dawkins é o Paulo Coelho da ciência."</title><description>“Dawkins é o Paulo Coelho da ciência.”</description><link>http://darwinexplica.tumblr.com/post/531182492</link><guid>http://darwinexplica.tumblr.com/post/531182492</guid><pubDate>Sun, 18 Apr 2010 15:34:23 -0300</pubDate></item><item><title>Juventude</title><description>&lt;p&gt;Ele não sabia se tinha pensado suficientemente sobre o assunto. Simplesmente puxou um papel, pediu uma caneta para a balconista - que lhe emprestou de mau grado, entre um olhar de reprovação e um capuccino malfeito - e começou a rascunhar. As palavras saíram tortas, as letras não se harmonizavam e definitivamente não agradavam ao olhar. Odiava quando isso acontecia, mas era inevitável: tremia demais. Estaria nervoso? Não havia um porquê e não lhe vinham motivos à mente. Era apenas a ansiedade a falar alto mais uma vez, como se lhe tocasse as mãos fazendo-as desenhar feio e tortuosamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já tinha passado de três linhas (escrevia com o guardanapo na horizontal) quando parou, repentinamente. Dobrou a folha e guardou-a no bolso da jaqueta. Confissão confessa? Estranhamente o peso não saíra de suas costas. Lembrou-se da professora do primário, que frequentemente recomendava que escrevesse desabafos. Na época lhe convinha muito, até que a mãe achou alguns escritos escondidos e nunca mais tornou à caneta. Hoje, no entanto, parecia diferente. O peso não escorria com a tinta e insistia em agarrar-lhe os ombros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dias melhores haviam passado.&lt;/p&gt;</description><link>http://darwinexplica.tumblr.com/post/468667469</link><guid>http://darwinexplica.tumblr.com/post/468667469</guid><pubDate>Tue, 23 Mar 2010 18:33:20 -0300</pubDate></item><item><title>Augustos</title><description>&lt;p&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&#13;
&lt;p&gt;Tenho percebido muito frequentemente que muitas pessoas tem, na fonte de todos os seus problemas e neuroses, a carência como geradora das mais diversas inconveniências a que somos submetidos pela fraqueza cerebral do abominável ser que é o bicho homem. Veja bem, não me reprove: felizmente insisto em afirmar que não partilho dessa besteira de lamuriar-me sofregamente pelos cantos para que não pense que tento assim me passar por qualquer tipo hipócrita; apenas pretendo descrever aqui as passagens desgastantes a que sou (e creio que você também o é) submetido no decorrer de nossa ínfima existência por essa trivial invenção humana que é sentir-se carente.&lt;/p&gt;&#13;
&lt;p&gt;Como sempre procuro e nunca canso de reforçar, o &lt;em&gt;&lt;u&gt;Homo&lt;/u&gt; &lt;u&gt;sapiens&lt;/u&gt;&lt;/em&gt; é, antes de tudo, uma espécie em particular que tenta desesperadamente desgarrar-se do meio seletivo que, por tanto tempo, a moldou. Em outros termos, o humano sempre busca o desvínculo com sua humanidade. Ei-lo: ser humano é ser animal, quer queira ou não, e há um estalo constante em nosso cérebro que busca se desprender dessa realidade a qualquer custo. Ao que pareço prolixo, explico: logo farei um pequeno &lt;em&gt;link &lt;/em&gt;com o primeiro parágrafo (sentindo muito pelo uso da palavra em inglês, mas que muito bem faz seu papel); peço apenas que me permita divagar somente mais um pouco. Quando dizemos que é humano ajudar as pessoas do Haiti (escusas à parte por aqueles que deportamos &lt;em&gt;desumanamente &lt;/em&gt;- compreende? - de nossa terra brasileira), apenas delimitamos uma ação que é inerente à nossa necessidade comum de, ora, ajudar nossa própria espécie. É como nossa necessidade programada de copular para reproduzir - esta última, no entanto, um pouco mais fácil de ser enganada pelos brilhantes métodos contraceptivos e pela masturbação. Logo, ao meu ver, não ser humano não significa sermos ruins ou prepotentes, ou até mesmo insensíveis, mas sim trabalhar nosso modo de conduzir nossas ferramentas de relação com o que nos cerca.&lt;/p&gt;&#13;
&lt;p&gt;Volto, finalmente, ao ponto em que parei no primeiro parágrafo. Dizia que a carência humana (falo daquela sentimental, a afetiva, não da falta de algo material ou daquela inventada pelas odiosas operadoras de celular: estas últimas transcenderam brilhantemente o humano) é uma fonte absolutamente renovável de problemas terrenos e, por consequência, banais. Nossa espécie é a única que percebe a necessidade estranha e inapalpável do elogio e do sentir-se necessário - procedência infinita de brigas entre filhos e mães, casais no limbo amoroso ou qualquer combinação dos supracitados - como parte das necessidades comuns de nossa fisiologia como é a reprodução ou a excreção. Este tipo de besteira inventada em consequência de um encéfalo excessivamente desenvolvido suga nossa capacidade de manter-nos pacientes diante de nossos semelhantes e tenta fazer-nos rebaixar àquilo que constantemente tentamos fugir que é, tão simplesmente, sermos nós mesmos: gente. Aquele que tem, dentre suas habilidades não apenas lutar judô, dançar balé ou fazer natação mas, também, ignorar sua estúpida necessidade de fazer-se carente está certamente englobado naquilo que gosto (e gosto mesmo) de chamar de homem superior (com a delicadeza de explicitar que me refiro à nossa espécie, e não ao sexo masculino da mesma; ainda hoje encontro muitas feministas de plantão prontas pra destilar seus venenos na inocência de nossas idéias). Creio que, se sentiu-se desgostoso ao ler esse meu infame - porém verdadeiro, pelo menos a mim - excerto, certamente não se engloba ao último e prestigioso grupo que citei. A você, recomendo sorvete e chocolate (digo isso exclusivamente porque estimo, com efeito, a dopamina) ou mesmo um bar: este último nem tanto, já que deve ser privilégio daqueles mais capazes de lidar com a coexistência e com os efeitos consequentes do álcool (presente no decorrer do processo evolutivo humano, o que poucos sabem, mas que deve ser objeto de uma discussão mais apropriada; o que posso fazer, por ora, é recomendar-lhes alguns artigos).&lt;/p&gt;&#13;
&lt;p&gt;Finalmente, o que pretendo deixar claro é um aviso aos poucos colegas que leem meus modestos escritos: deixem de ser estúpidos e utilizem-se daquilo que é a grande bênção de nossa realidade enquanto táxon que é a simples, pura e admirável racionalidade. No mais, se não partilham dessa capacidade (o que, em termos estatísticos, não me surpreenderia) limitem-se a aborrecer seus colegas, parceiros sexuais (se o tiverem, o que recomendaria fortemente) e parentes da forma menos invasiva possível. E viva la evolución.&lt;/p&gt;</description><link>http://darwinexplica.tumblr.com/post/461866953</link><guid>http://darwinexplica.tumblr.com/post/461866953</guid><pubDate>Sat, 20 Mar 2010 20:12:00 -0300</pubDate></item><item><title>Pastel de vento</title><description>&lt;p&gt;Pagava o jornal sem sequer emitir som algum. De que adiantava?, pensava. Falavam línguas diferentes. Todo começo de semana, a mesma coreografia: era pegar o jornal (escolher o menos amassado dava-lhe a impressão de que as notícias valiam mais), pegar alguma nota na carteira (dez ou cinco reais, assim trocava o dinheiro e sobravam-lhe algumas moedas para dar ao cobrador de ônibus) e pagar. Silenciosamente. Vez ou outra chacoalhava o jornal no ar, para mostrar qual estava comprando. Tinha a impressão que o homenzinho desconfiava, não gostava disso. Teria cara de ladrãozinho barato de banca de jornal? Andava sempre bem vestido, passava um ar de gente inteligente (alguns amigos discordavam entusiasticamente disso). A idade, talvez. &amp;#8220;Jornal é coisa de velho&amp;#8221;, imaginava o homem falando aos mileum gestos ao enfiar o dedo no nariz de um suposto existente neto. Logicamente a fonética seria outra. Como será que seria?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Espantou os pensamentos como se fossem moscas, bufou. Malditos estereótipos.&lt;/p&gt;</description><link>http://darwinexplica.tumblr.com/post/455001659</link><guid>http://darwinexplica.tumblr.com/post/455001659</guid><pubDate>Wed, 17 Mar 2010 17:16:00 -0300</pubDate></item><item><title>Orangotangos</title><description>&lt;p&gt;Considerei-o um idiota, um completo estúpido abobalhado. Estava em um grupo de cinco, talvez seis indigentes em trajes de banho que julgavam salientar as variantes positivas inexistentes de seus corpos redondos e engordurados pelo bloqueador solar. Uma baixinha cheia de estrias - daquelas que entram em um mundo paralelo onde podem finalmente sentir-se bonitas ao vestirem um chapéu sovado e se enfiarem em bíquinis de fechos estourados - palestrava a respeito das banalidades que faria se tivesse alguns dólares na mão. Os demais, homens de corpo e comportamento peludos como chimpanzés, se reuniam em volta dela, macaqueando como se aquela peça horrível de ser humano estivesse no cio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O sobressalente, o tal estúpido, sorria sem graça um sorriso amarelo enquanto levava os dentes levemente para frente: isso, de certa maneira, elevava e abria suas narinas de forma a tornar aquela feição ainda mais idiota. Era óbvia sua condição naquele grupo. Após alguns malabarismos com uns copos cheios de cerveja, os homens sentaram-se acompanhando a moçoila que brilhava úmida e pegajosa; esta, para mostrar um mínimo de classe, pediu uma caipirinha (de cachaça, era mais barata e não podia pagar mais do que isso até que escolhesse um parceiro naquele bando que satisfazesse suas efêmeras necessidades econômicas) e se esparramou gordamente em uma cadeira de plástico, que abriu gostosamente as pernas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estavam todos ali, reunidos em torno da única mesa melada pelo álcool que puderam encontrar naquele entorno de praia. O bobo continuava a olhá-los; sua expressão besta mudava raramente, forçando um riso eventual para que pudesse agradar os potenciais companheiros. Sentou-se um pouco afastado, fora da roda em torno da mesa, de modo que evidenciava que ainda não era de todo aprovado pelos colegas. Sua aparência mulambenta denunciava uma realidade ainda mais deplorável, o que foi imediatamente confirmado ao pedir uma coca: a cerveja era cara, e ademais, não sentia-se efetivamente benvindo a ponto de partilhar da conta e da bebida do bando que babava naquele exemplar roliço que sugava o copo de caipirinha, quase comendo-o.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Riram fartamente por cerca de duas horas, tempo em que só se fez necessária a presença do garçom duas vezes (uma delas para recolher os restos de uma garrafa que fora vítima dos malabarismos desajeitados de um dos pretendentes da senhorita, o que não foi bem recebido por ela mas deveras conveniente aos demais) e fora suficiente para o que o aparvalhado excluso pudesse se achegar com a cadeira mais dois passos da mesa. Agora suas perninhas finas peludas, que exibiam algumas diversas brotoejas cobertas de areia, balançavam ansiosamente diante da possibilidade de apoiar-se na mesa: a seu ver, um gesto de triunfo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas não houve tempo suficiente. A guria levantou-se, desajeitada, tentando desvencilhar as enormes ancas dos encostos da cadeira de um forma minimamente digna. Os pretendentes à macho-alfa se puserem em pé rapidamente, e puseram-se a discutir a que outro local poderiam despejar o comportamento banal que já havia, há muito, sendo reprovado pelo garçom e pelo dono do pequeno estabelecimento em que se encontravam. Seguiram meio sem rumo, cercando aquele tipo empolado, em um maiô que não era suficientemente grande pra esconder as marcas vermelhas feitas pela cadeira de plástico na enorme bunda ensebada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O pateta os seguiu, insistindo na ínfima possibilidade de integrar-se. Seguiram-se uns cochichos e umas cotoveladas entre os homens, que empurraram o malabarista desajeitado (já rebaixado em sua condição de pretendente) em direção ao franzino desarranchado. Os dois pararam enquanto o restante continuou o passo, e trocaram algumas palavras; o estúpido fez alguns sinais com a mão como se aprovasse e concordasse com algo, o que fez o colega sorrir abobadamente e correr de volta ao grupo que se afastava.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ali, sozinho, estacou. Olhou em volta, e avistou, bem longe, alguns tipos jogarem futebol em um campo improvisado na areia. Assim, mirou. E correu a passos largos.&lt;/p&gt;</description><link>http://darwinexplica.tumblr.com/post/448257237</link><guid>http://darwinexplica.tumblr.com/post/448257237</guid><pubDate>Sun, 14 Mar 2010 17:01:00 -0300</pubDate></item><item><title>Artesanato</title><description>&lt;p&gt;Havia uma certa expressão de cansaço no rosto dela, por mais que não a apresentasse fisicamente - seja em forma de rugas ou qualquer outro sinal do tempo. O esgotamento não era efêmero, momentâneo: era a prova de alguém que fora constantemente colocada a teste durante toda a vida. As possibilidades eram imensas; poderia ser o insucesso em algum casamento, um trabalho insalubre, talvez uma condição financeira desfavorável e insuficiente. Teria filhos?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Logo se ajeitou na cadeira, espalmou as mãos sobre a mesa. Ajeitou um xale curto sobre os ombros (as cores gritavam) e declarou em alto e bom som, a dicção extremamente clara: estava ali pra ser voluntária. Talvez esperasse mais retumbância na própria voz, ou talvez não esperasse nada. Olhou desgostosa ao seu redor, infeliz com a ausência de olhos arregalados ou expressões impactadas pela sua última declaração de liberdade a um mundo, à sua sugestão, desordenado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Poucos foram ao seu socorro. Sabia fazer tricô e levava sempre a tiracolo uma sacolinha de pano com agulhas e linhas, a exemplo de escritores com cadernos e crianças com gizes de cera. Se a necessidade gritasse, se o ócio predominasse, atividade não lhe faltaria. Foi sua salvação: em poucos minutos já ostentava uma pequena lista de afazeres. Pôs-se a trabalhar depressa, usando palavras assim como locomotivas se utilizam da fumaça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pouco a pouco, as primeiras impressões foram se confirmando. Houve um misto de causa e consequência, e rapidamente tornou-se difícil identificar quem amparava quem: meio ou indivíduo. E foi assim, nesse exato momento, que o limite entre ajudar e ser ajudado confundiu-se a ponto de tornar-se um só.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não havia trabalho voluntário.&lt;/p&gt;</description><link>http://darwinexplica.tumblr.com/post/445445847</link><guid>http://darwinexplica.tumblr.com/post/445445847</guid><pubDate>Sat, 13 Mar 2010 10:27:54 -0400</pubDate></item></channel></rss>
